Igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz – Ouro Preto – Minas Gerais

O nome completo da primitiva igreja dos negros era ‘Nossa Senhora do Rosário dos Pretos da Capela da Cruz do Alto do Padre Faria‘. Nome que indicava o local onde se encontrava: o Alto da Cruz, um bairro de Ouro Preto, situado num monte perto da Capela do Padre Faria (local onde surgiu a cidade).

A confraria do Rosário, formada por negros – escravos ou alforriados -, foi fundada na cidade por volta de 1730, e inicialmente ficava abrigada na igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, onde, juntamente com outras irmandades, possuía um altar.

Com o crescimento da cidade e aumento de recursos, a irmandade resolveu fazer sua própria igreja, que foi dedicada a Nossa Senhora do Rosário (a principal devoção mariana adotada pelos negros). Mas, com o passar dos anos, a igreja ficou mais conhecida por sua outra padroeira, Santa Efigênia – uma princesa da Etiópia, nascida no século I da era cristã, que foi convertida pelo apóstolo São Mateus e que colaborou enormemente na cristianização daquele país. Obviamente era venerada com devoção por todos que tinham também origens africanas.

O templo começou a ser construído ainda na primeira metade do século XVIII. A irmandade teve condições de bancar vários artistas para embelezamento do templo, dentre os quais Manuel Francisco Lisboa – o pai do Aleijadinho, Francisco Xavier de Brito (entalhador), Francisco Branco (entalhador), Manuel Gomes da Rocha (entalhador), Miguel da Costa (pedreiro), Felipe Vieira (entalhador), etc…. Os nomes desses artesãos ficaram registrados nos livros de pagamento da irmandade, que fez tudo com esmero e da melhor forma que pode. Ademais, no pórtico da igreja, há uma bela imagem esculpida em pedra sabão, de autoria atribuída ao Aleijadinho.

Nas igrejas barrocas, a confecção de um altar envolvia uma série de etapas, que incluíam o plano geral da obra, o fornecimento e administração do material usado, a execução do risco, o aparelhamento, a escultura de ornamentos, a escultura de imagens e anjos, revestimento de gesso, pintura, douramento, etc. E, devido à quantidade de artistas que trabalharam nessa igreja, nos diversos detalhes há uma mistura das características de cada um deles.

As obras terminaram quase cinquenta anos depois de iniciada, por volta de 1780.

O teto da igreja é belamente adornado com pinturas, e no altar mor há uma representação de um papa de cor negra. Também na capela mor, há painéis que foram pintados em dois tons de cores por Manoel Rabelo de Souza, retratando cenas da vida cotidiana do século XVIII.

Conta-se que, na etapa em que os altares estavam em fase de douramento, as escravas que trabalhavam nas minas escondiam resíduos de ouro dentro dos cabelos, e posteriormente lavavam as madeixas nas pias de água benta da igreja. O ouro que caía no fundo era depois retirado e usado para dourar os altares. Conta-se, também, que os negros trabalhavam fazendo a igreja no período noturno, pois durante o dia tinham que atuar nas minas.

Embora esses fatos possam realmente ter ocorrido, sabe-se que as irmandades de negros também possuíam recursos suficientes para pagar os artistas e o ouro do douramento (não sendo necessário, portanto, trazê-lo às escondidas). Ademais, havia na cidade milhares de negros alforriados (que conseguiam a liberdade mediante pagamento), e que podem perfeitamente ter colaborado na construção da igreja, em plena luz do dia.

Referências:

– Almeida, Lucia Machado de, Passeio a Ouro Preto, Belo Horizonte: Itatiaia/USP, 1980

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Borges, Célia Maia, Escravos e Libertos nas  Irmandades do Rosário: Devoção e solidariedade em Minas Gerais – séculos XVIII e  XIX. Juiz de Fora- MG: Editora da UFJF, 2005

– Mourão, Paulo Kruger Correa, As igrejas setecentistas de Minas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1986

Fonte: https://patrimonioespiritual.org/

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